segunda-feira, 13 de abril de 2009

Maculando a memória de Graham Bell



Tamanho foi o meu espanto ao descobrir que existem questionamentos em relação ao verdadeiro inventor do telefone. Na escola, aprendemos que o autor dessa invenção foi Graham Bell. No entanto, alguns identificam Johann Philipp Reis como seu verdadeiro pai. Na tentativa de construir uma “orelha artificial” para aliviar a surdez da sua avó, este alemão acabou contribuindo para a concepção do telefone que conhecemos hoje. No primeiro aparelho que montou, utilizou componentes inusitados como uma salsicha, cuja pele foi esticada sobre uma rolha de cortiça para servir de microfone. Sabe-se Deus como uma pessoa, ao olhar para uma salsicha, pode ter tido o insight de que esse alimento funcionaria como um componente de um microfone. Além de Johann, Antonio Meucci, um italiano, também requisitou o crédito da invenção do telefone em 1980.
Enfim, independente de quem foi o verdadeiro inventor, o importante é que esses homens, com suas mentes extraordinárias, acabaram concedendo-nos essa invenção revolucionária que elimina distâncias, rompe fronteiras e aproxima pessoas. O que eles não sabiam era que as limitações de alguns seres humanos transformariam esse fabuloso invento em um instrumento causador de irritação para com seu semelhante.
Uma dessas experiências irritantes, ao atendermos o telefone, é a grande charada imposta por algumas pessoas com a pergunta: adivinha quem é? Vamos raciocinar: você não está tendo nenhum contato físico com a pessoa que ligou - o que faz com que a única chance de você descobrir quem é será pelo reconhecimento da voz. E o único momento em que você escuta a voz é quando ela faz a pergunta idiota: adivinha quem é? A solução é ignorá-la e desligar, no caso de insistência.
Outro ponto irritante envolvendo essa invenção é quando o telefone toca, a pessoa atende e, por algum motivo técnico, não consegue ouvir a voz de quem ligou. Com o silêncio instalado, a pessoa que atendeu inicia uma cadeia incessante de alôs. São sete, dez alôs, seguidos em um suplício desesperado por uma voz, por qualquer ruído que venha do outro lado da linha. Enquanto a seqüência de alôs é proferida, o pobre coitado que ligou, e que não consegue ser ouvido, não é capaz de refazer a ligação. E todos aqueles que estão ao lado da pessoa inconformada têm que sofrer com o bate-estaca de alôs na cabeça. No meu caso, falo no máximo dois; caso não obtenha resposta, desligo.
E quando a pessoa do outro lado da linha tem a voz de locutora de aeroporto gozando e que acabou de tomar um Lexotan? Deveria haver uma lei que proibisse pessoas que falam baixo ou para dentro de se aproximarem de um telefone. O que se ouve é uma voz ao fundo, tênue e calma, vinda de um universo paralelo. E você não consegue ouvir porra nenhuma. Além de ter que apertar com força o fone contra o ouvido, inventando quase que um tratamento para orelha de abano, você tenta mostrar à pessoa que não está conseguindo ouvi-la, dando gritos:
- O quê? Está baixa a ligação! Fala mais alto!
Mas a desgraçada continua falando no mesmo tom, só que pausadamente.
A ligação melhora e ai vem o ápice da tortura:
- Alô!
- Alô, por favor a Ciça.
- Desculpe, mas não mora ninguém aqui com esse nome.
Aliás, porque diabos começamos essa frase sempre pedindo desculpas? Desculpa de quê? Desculpa porque a Ciça não é minha irmã? Desculpa porque ela não é minha amiga? Desculpa por ela morar em outra casa? Faria mais sentido responder:
- Que pena! Não tem ninguém aqui com esse nome.
Enfim, após ter passado essa informação, você pode ouvir do outro lado da linha um silêncio sepulcral ou a seguinte questão:
- Ué? Qual o número daí?
Em que vai beneficiar a pessoa saber qual o meu número, se eu acabei de informá-la de que o meu número não é o número que ela deveria discar para encontrar a Ciça? Já sem paciência, me rendo e respondo:
- 3232-4455
Com a informação dada, duas respostas são possíveis:
- Ah! Então está explicado, eu tinha que ter discado o final 4456 e não 4455.
Apesar do fato de, sabendo o número correto que ela deveria ter discado não acrescentar nada em minha vida, a pessoa insiste em passar essa informação. Mas o pior é quando a pessoa dá a segunda opção de resposta:
- 3232-4455? Ué, mas está certo! Foi esse o número que a Ciça me deu.
Pausa no mundo. Fico sempre pensando nesse momento, qual o possível complemento para essa frase? Eu poderia responder:
- Ok. Vamos lá de novo. A Ciça lhe deu o telefone 3232-4455 que é o meu número. Como a Ciça não mora aqui e também não a conheço, podemos concluir que ou o número que ela lhe deu não estava certo ou você entendeu errado.
E a pessoa insiste:
- E agora? Eu precisava tanto falar com ela.
Com a certeza de que a pessoa ainda vai me fazer perder muito tempo com uma conversa que não vai dar em absolutamente nada, respiro fundo e, antes que eu tenha um surto psicótico e comece a xingá-la, desligo com a força e velocidade quase equivalentes à usada pelos juízes ao baterem o martelo para pedir silêncio no tribunal.
Não conseguiria imaginar minha vida sem o telefone e nem conseguiria resumir todos os benefícios que ele pode trazer para a humanidade. Com o celular, a voz pela internet e todos os avanços que estão por vir, a solução é trabalharmos a nossa paciência para com aqueles que não sabem desfrutar dessa máquina de forma coerente e normal e, em último caso, aperfeiçoarmos o tão conhecido gesto de desligar na cara da pessoa com a precisão e força de um guerreiro japonês.

2 comentários:

  1. adriana - palavra criada20 de julho de 2009 19:18

    Alô? Alô? Tati? Tá me ouvindo? É a Adriana. Não foi engano: gosto muito dos seus textos!!

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